Nekomura Iroha, mais que uma personagem para mim

16/05/2026
Colagem com várias imagens oficiais e/ou promocionais da personagem Nekomura Iroha. Ela possui cabelo laranja em um rabo de cavalo alto, pele clara, olhos castanhos e usa roupas com decoração da Hello Kitty.

Vou começar esse texto com um “quem me conhece, sabe”, e dizer: se você me acompanha desde o início, ou realmente me conhece, sabe que eu tive minha fase Vocaloid. E ela foi bem, bem importante para mim. Irritantemente, fui meio que obrigada a largá-la, afinal, quem me conhece também sabe que eu fui vítima de bullying quando pré-adolescente, exatamente por ser a otaku esquisita da turma.

Assim como quase todo mundo, eu comecei adorando a Hatsune Miku, depois fui conhecendo os demais, e me apaixonei por uma Vocaloid com temática de Hello Kitty, chamada Nekomura Iroha. A voz grave, o visual mais fofo, e uma quantidade de fãs bem pequena, mas dedicada, era tudo o que eu precisava naquele momento.

E, essa semana, no dia 14 de Maio, ela fez aniversário! Por isso que quero contar essa história, do motivo pelo qual essa menininha ruiva da voz profunda é tão importante para mim.

Eu baixei suas músicas pra ouvir no trajeto até a escola, comecei a me esforçar mais nos desenhos, aprendi a mexer no MikuMikuDance para fazer animações com ela, lia fanfics no Nyah!Fanfiction, no Fanfiction.net, no Social Spirit, procurava fanarts, é, eu era muito dedicada!

A Iroha era parte do projeto Hello Kitty to Issho!, onde vários ilustradores populares criaram “meninas Hello Kitty” (e uma pessoa ilustrou um menino, quis ser diferente), chamadas Kittylers. Eu ficava imaginando interações entre esses personagens, o que era muito alimentado pelos vídeos que o canal oficial do Hello Kitty to Issho! compartilhava com algumas músicas originais.

Eu ia além de amizades: tinha um ship muito específico dela com o Vocaloid Utatane Piko. Sério. Pouca gente apoiava o casal, mas até hoje acho que faz sentido, viu? Especialmente dadas as personalidades que eu imaginava para os dois. Era meu entretenimento para as viagens longas. Pra vocês verem que não era só eu quem gostava, tem até um selo no DeviantArt para quem é fã do casal usar em seu perfil.

Restaram poucas coisas dessa época, infelizmente. Muita gente excluiu seus perfis, removeu os conteúdos de fã para tentar monetizar o trabalho criativo, ou, pior ainda, os sites fecharam, mas eu lembro bem de bastante coisa. Tempos mais simples, com certeza.

Por volta de 2014, ainda que não me orgulhe muito disso hoje em dia, fui fora da lei e baixei uma “versão gratuita”, correndo risco de colocar nem Deus sabe quantos hackers pra dentro do meu computador. Eu adorava brincar, fazer ela cantar minhas músicas favoritas enquanto sofria em rodar um programa pesado no meu notebook de 2 GB de memória RAM (aos curiosos: era um RV415.) Não ganhei um tostão, e não publiquei a maior parte das coisas que eu fazia, mas não acho isso ruim.

Lembro até de ter feito, em 2015, um texto no meu antigo blog sobre a versão para VOCALOID4, que… é. Acho polêmica até hoje, não sei exatamente o motivo de terem sexualizado a personagem em uma das caixas, mas eu aceitei que posso ignorar.

Até mesmo porque, junto dessa versão, veio a revelação de quem é a pessoa maravilhosa por trás da voz marcante dela, e ninguém menos que Kyonosuke Yoshitate, que todo mundo já suspeitava há milênios. Então… qual o peso de um visual que eu não gostei? Nenhum.

Imagem mostrando, lado a lado, as caixas dos bancos de voz para Vocaloid da Nekomura Iroha. Da esquerda para a direita: Soft, exibindo a personagem em uma versão adulta, usando uma espécie de kimono estilizado e um decote extremamente destacado; Natural, com a personagem em sua idade normal, usando um vestido vermelho com a saia formando a cabeça da Hello Kitty; V2, com seu característico capacete vermelho e megafones nas mãos.
Da esquerda para a direita: as caixas para os bancos de voz Nekomura Iroha V4 Soft, Nekomura Iroha V4 Natural e Nekomura Iroha VOCALOID2. Colagem feita por mim, usando as imagens comerciais da AH-Software.

Foram anos, mais precisamente, de 2014 até 2017, mexendo com o software, mas quis iniciar o Ensino Médio sendo menos nerd e larguei Vocaloid, até mesmo pra evitar me meter em confusão por piratear. Além disso, “perdia” muito tempo fazendo isso, e aceitei que era melhor ficar apenas com o MikuMikuDance, tanto que vocês ainda podem ver imagens que fiz com esse programa pelo blog e no meu antigo DeviantArt.

Nesse período que fiquei afastada, o fandom foi dando uma esfriada, o projeto Hello Kitty to Issho! foi extinto, e, quando me dei conta, já nem estava mais usando o MikuMikuDance, nem Vocaloid, nem UTAU, nem nada. As prioridades foram outras: terminar o Ensino Médio, se entender como jovem adulta, faculdade, trabalho…

Inclusive, retomando o ponto de que muita coisa foi deletada, me arrependo amargamente de ter um dia decidido excluir a coleção de imagens que eu tinha no meu computador. Não sei, de verdade, o motivo de ter feito isso, mas agora arco com as consequências: me meter em sessenta sites estranhos para obter as mesmas imagens que eu tinha antigamente só baixando do site original.

Foi em Setembro do passado, ao ver um vídeo da demonstração do novo banco de voz da Nekomura Iroha, que as emoções voltaram à tona. Ouvir novamente a primeira música demo com a nova voz literalmente me fez chorar.

Subitamente, eu era a adolescente ouvindo o álbum só de músicas dela e olhando a paisagem pela janela do ônibus enquanto ia para a escola, imaginando vídeos e fanfics. Lembrei de mim mesma, me perguntando se eu conseguia fazer um fangame mesmo sem conseguir fazer arte digital. Eu me senti maravilhada com o que vi e deu uma saudade imensa, me peguei pensando “será que hoje em dia eu faria diferente?”

E só consegui sorrir, pois, se cheguei até aqui, também foi graças a esse período. A Iroha foi um incentivo para eu tentar várias coisas novas, para eu encher o saco da minha família até conseguir um notebook melhor (que é o que eu uso até hoje, embora todo remendado), para eu abraçar meu lado fã, e, no geral, tentar fazer coisas por mim mesma.

Às vezes, quando vejo as publicações do Kyonosuke sendo um pai para a personagem e o fandom ressurgindo, tenho pensamentos consumistas. Dá vontade de comprar o banco de voz novo e os modelos 3D feitos por ISAO, mas não sei se, dada a minha rotina atual, vale o gasto. Bom, quem sabe? Eu acho que eu mereço um mimo caro, e acho que a Iroha merece uma segunda chance comigo, dessa vez, dentro da lei.

Acho que oficialmente posso defini-la como minha personagem de conforto e fico bem feliz de poder falar sobre ela. É algo importante para mim, e ter conseguido desbloquear essas memórias e sentimentos foi algo muito bom.

Enfim, tudo isso para dizer: obrigada por ter sido minha companhia por tanto tempo, Iroha, e feliz aniversário atrasado!

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