Eu já aviso que esse texto será sobre luto e resgate de animais abandonados, logo, obviamente, teremos momentos tristes por aqui, e não vou ficar me polindo. Se forem temas delicados, leitor, se retire, está tudo bem em se retirar.
Estive ensaiando um texto desde 28 de Maio, mais conhecido como o dia do aniversário do meu blog. Sim, esse blog! E eu ainda pretendo postar o que estava escrevendo, embora ache que algumas coisas não se apliquem mais.
Quase ninguém sabe, porque não fiz grande alarde sobre isso, mas, em Setembro do ano passado, eu perdi o Pitchuco, nosso gato desde 2016. Foi um momento muito pesado para nós, embora a gente já soubesse que a saúde dele esteve frágil nos últimos meses. Um resfriado virava um auê gigantesco, qualquer coisa deixava ele muito abatido, e não sabíamos exatamente o que estava acontecendo. Achávamos que era a idade e o histórico dele com outros tratamentos, como o da esporotricose, que ele teve ainda jovenzinho.
Enquanto ele ainda era vivo, porém, um gatinho preto vivia circulando pelas ruas e deitando na sombra do portão da nossa casa. Ele era bonzinho, mas não tínhamos como colocar ele para dentro ainda, até mesmo porque ele tinha dona, então dávamos comida, carinho, brincadeira, e devolvíamos, mesmo de coração partido. A gente às vezes até separava quando outros gatos iam brigar com ele, porque ele era tão pequeno e bobo, era covardia bater nele, sabe?
Mas começamos a não vê-lo com tanta frequência. Essa dona, que chamava ele de Salém (nome básico do cacete), aparecia de vez em quando para recolhê-lo, então achamos que, sei lá, ela tivesse criado vergonha na cara e passado a cuidar dele preso em casa. Não foi o caso.
Ele começou a aparecer aqui no começo desse ano para comer, e, aos poucos, passou a morar aqui. Lembro que, no meu coração, ele virou oficialmente nosso no dia 21 de Abril, pois era o décimo aniversário de adoção do Pitchuco e eu estava péssima. Esse gatinho preto ficou do meu lado enquanto eu encarava o túmulo do Pitchuquinho, sentado em silêncio, e eu pensei “bem, por que não tentar de novo?” O único requisito era que ele ficasse isolado das nossas outras gatas por precaução e por não ser castrado.
Lembro que eu tinha recém-começado em um cliente novo e que estava sendo difícil. Trabalhar em consultoria significa às vezes sair de um ambiente superlegal do nada e migrar para algo que, nossa, só por dinheiro, mesmo, então ficar com ele era uma nova forma de relaxar. O Salém socializava engraçadinho, parecendo um alienígena: não ronronava, mas amava se esfregar na gente; só comia de dia se vigiássemos ele; tinha um jeitinho engraçado de andar, meio cambaleando, o que achamos primeiro que era por algum tombo ou lesão nas ruas; encarava a gente, sem piscar, sem nada, apenas olhos verdes de pupilas finíssimas nos olhando.
Nem preciso dizer que me apeguei rápido. Eu era louca para trocar o nome dele, afinal, além de odiar o quão clichê o nome Salém é para um gato preto macho, achava que seria uma mudança simbólica. Ele ia viver um bom tempo com a gente, e ia ser o divisor de águas, das ruas para uma família disposta a amá-lo. Tenho fotos, vídeos, vários momentos no diário, pareceram anos de tanta coisa engraçada e fofa.
Inclusive, num extra, acreditam que a antiga dona dele teve a coragem de bater no nosso portão e pedir o gato de volta, depois de admitir ter deixado ele para trás por mais de um ano? Nós não sabíamos que ela tinha saído do bairro. Ele ficou largado por muito mais tempo do que esperávamos. Mas ela desistiu, e ele ficou aqui, vivendo uma vidinha de gato burguês.
Mesmo comendo bem, ele começou a perder peso muito rápido. Além disso, um resfriado que não melhorava, e, de tanto espirrar e fungar, ele machucou o nariz e saiu muito sangue. Levamos ao veterinário para ver o nariz, mas outra coisa chamou a atenção: a barriga dele. Dura demais para um gato tão magrinho.
As opções eram:
- Um fecaloma no melhor caso, dada a desidratação de morar nas ruas por anos;
- Rins aumentados, num caso mediano, mas ainda grave, ou;
- Câncer em algum dos órgãos, num caso onde, provavelmente, só teríamos cuidados paliativos e qualidade de vida até a morte tirar ele de nós.
Já agendamos a ultrassonografia pro dia seguinte, e tiramos sangue dele para que fosse feito o exame. Ele voltou para casa, e lembro que dei churu para ele, como recompensa por ter sido um bom menininho, e muito carinho, também, mas isso era o de sempre.
Os resultados vieram, nada animadores: anemia grave, provavelmente crônica, e rins aumentados, com um deles severamente comprometidos. Um dos veterinários falou que o problema nos rins era, provavelmente, genético, e mencionou cuidados paliativos, mas outros deram uma esperança, desde que o Salém fosse internado e tivesse uma transfusão de sangue, o que ia sair por uns dois mil reais no mínimo. Nós não entendíamos como poderia um gatinho tão ativo estar tão mal, mas os veterinários não sabiam como um gato tão mal poderia estar tão ativo.
Mas somos teimosas, não desistimos dele. Compramos os remédios enquanto nos informávamos sobre transfusões. Mas, após pouquíssimos dias desde a consulta, infelizmente, o quadro dele virou para a pior. No mesmo dia que ele comeu, brincou, fez gracinha para ter carinho, ele parou de comer a ração e começou a beber menos água.
Chegamos a manter o Salém com churu e outras comidinhas mais molinhas por pouco tempo, mas ele começou a ficar prostrado e a ter dificuldade de respirar, o que é péssimo. Minha irmã o levou para o veterinário, dessa vez, em outra clínica, e começaram algumas questões que não foram feitas antes. Deram soro para ele, e fizeram um exame que confirmou que, além dos problemas nos rins, ele era FeLV positivo, o que começou a preencher as lacunas para nós.
Para quem não sabe, ou não quer pesquisar, Feline Leukemia Virus, ou FeLV, é, como o nome sugere, a leucemia felina, que ataca o sistema imunológico e deixa o animal mais suscetível a doenças. Doença que não tem cura, e transmissível de um gato para outro por saliva, urina, fezes, leite materno, e contato sexual.
Conversando com a veterinária depois disso, desconfiamos que os gatos da nossa rua devem ser, em maioria, contaminados, visto que são quase todos uma grande família. E que, provavelmente em uma das escapadinhas por causa de gatas no cio, porque ele era impossível conter ele sempre, o Pitchuco também deve ter se contaminado (lembra que ele tinha resfriados que rendiam por muito tempo?)
O Salém foi internado em seguida, e chegamos até a comprar a bolsa de sangue, mas ele se foi antes mesmo de poder fazer a transfusão. Ele faleceu antes mesmo da minha irmã poder voltar para casa, após duas paradas respiratórias.
Foi impossível não chorar, não se sentir culpada por horas, não querer desaparecer. Mas, depois de acalmar os nervos, depois de conseguir pensar um pouco com a razão e não apenas com a dor da perda, a verdade é que, como ele já chegou até nós muito doente, fizemos tudo o que estava ao nosso alcance, principalmente dar amor e momentos felizes.
Eu lutei contra esse pensamento, quis culpar a mim mesma, o primeiro veterinário, talvez alguma demora no hospital, pois sabia que o quadro dele poderia se estabilizar após meses de luta, mas com chances altas de óbito no processo. Não vou dizer que era impossível dar certo, mas ia ser muito difícil. Não faz doer menos, acho que até o contrário. Como lidar com algo tão efêmero?
É doloroso demais. Pensar que, mais uma vez, em menos de um ano, perdemos um miau-miau. Mesmo fazendo de tudo, mesmo dando nosso melhor, a vida dele nas ruas acabou piorando o quadro dele, abaixando a imunidade e fazendo a FeLV agravar. Mas tento me apegar ao fato de que fiz meses de um bichinho abandonado serem mais coloridos. Uma caminha quentinha, comidinha no prato, água limpa, caixinha de areia, carinho e plantinhas para ele deitar perto.
O Salém — que eu queria ter nomeado como Ramiel ou Lysandre, mas não passou no crivo da família — nunca vai deixar de existir para mim. Assim como o Pitchuco também não vai, e nem a Fedida, minha primeira gatinha e o motivo de eu amar felinos pequenos (antes dela eu era fascinada por onças). Mas a história dele me dói, porque, antes de nós entrarmos, era uma trama de abandono.
Independente de motivos, embora ache isso injustificável, o Salém foi abandonado, assim como vários outros bichos da nossa rua foram. Ele foi largado à própria sorte, e provavelmente nunca teve uma consulta veterinária antes de nós, porque muita gente aqui acredita que cuidar de bicho é só tirar foto pro Instagram, dar comida e dar água. Às vezes nem caixinha de areia dá, solta na rua pra eles fazerem as necessidades. Quem me acompanha nas redes sabe que eu já tentei denunciar, mas nada é feito, porque, aparentemente, a causa animal só importa em época eleitoral.
Ainda estou péssima, e tentando não chorar sempre que vejo a marca da patinha dele na cartinha que o hospital nos deu, mas eu espero, de coração, que algo seja feito nesse lugar onde moro. Espero que mais gente se sinta confortável em levar essas causas para o governo local, sem sentir medo de ser taxado de ridículo. O Salém não teve culpa e merecia muito mais, mas quantos mais, independente de espécie, sofrem sem uma família para resgatar?
Não deixem seus gatos darem escapadinhas, não sejam como nós, que cedemos e deixamos o Pitchuco ir às vezes. Basta apenas o contato com um gato doente para contrair doenças. Castrem, criem presos, vacinem, por favor, e não abandonem. Eu sei que é difícil e que quase não se adota bicho adulto, mas façam um esforço. Pensem em um bichinho cheio de amor para dar, mesmo depois de um ano de abandono: era o Salém.
Se forem resgatar das ruas, não façam como eu, de esperar, mesmo que pouco, para fazer exames. Acho que nossa abordagem teria sido muito diferente se soubéssemos desde o início que ele estava mais para terminal que para um gato saudável. E, principalmente, denunciem acumuladores de animais. Isso é crime, não importa o quanto façam piada.
Estarei torcendo por um pós-vida onde exista um clube de gatos pretos chamados Salém, onde ele vai se sentir em casa. Que o Pitchuco vá receber ele, principalmente porque os dois se conheceram, e eles possam debater sobre churu e carinho nas bochechas. Conhecendo a Fedida, ela não socializaria com nenhum dos dois, pois ela era muito independente para isso.
Que ele esteja em paz, mesmo que tenha perdido a batalha, e que saiba que sentimos saudade.
Uma ilustração, pois ainda não tenho coragem de fazer alguma colagem ou coisa do gênero com as fotos dele.
Fonte: jessthechen via Giphy

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