Ao organizar minhas listas de coisas para assistir, encontrei Com Carinho, Kitty. Reassistindo o teaser da primeira temporada, confesso ter ficado, novamente, curiosa, afinal, romance adolescente ainda é uma coisa que me entretém nesse mundo complicado.
Lembro de ter lido Para todos os garotos que já amei no Ensino Médio e ter gostado da Lara Jean, embora só tenha curtido mesmo o primeiro livro. A ideia de um Spinoff onde a irmãzinha caçula vai atrás dos segredos da família me deixou investida, e… bem, infelizmente me decepcionei, tanto que assisti apenas as duas primeiras temporadas.
E, como essa decepção foi um tanto além de simplesmente “essa série não é pra mim”, eu decidi expor um pouco do que sinto aqui no blog, porque acho que isso vai além de ser um problema com esta série específica, e, sim, algo na indústria.
Uma leve passagem no enredo
Vou tentar evitar spoilers nessa seção para colocar nas outras. Então prossigam pelo texto com cautela!
A série começa com Kitty planejando uma surpresa para Dae, seu webnamorado. Surpresa essa que nada mais é que começar a estudar na mesma escola que ele e encontrá-lo na festa de início das aulas. Para isso, ela deverá, claro, sair do seu país e viajar para a Coreia. Em um extra, ela pretende investigar sobre sua falecida mãe e entender mais sobre suas origens.
Ela consegue a permissão da família, faz a viagem, esbarra em setecentas pessoas importantes para a trama, como Yuri, uma garota rica que estuda com ela, e Min Ho, um cara também rico e meio arrogante que a série tenta te convencer que é muito mais bonito do que ele é. Ao chegar no colégio, Kitty dorme por causa da diferença de fuso horário, mas acorda a tempo de se arrumar, colocar um vestido feio para a festa e encontrar Dae.
Momento mágico de K-drama, exceto que Dae tem uma namorada, que não é ela, e, sim, Yuri. Que climão, hein, menina.
Daí pra frente, a primeira temporada é basicamente de adolescentes tentando resolver mal entendidos em situações 100% norte americanas e de formas mais norte americanas ainda. Tudo isso enquanto se metem em várias situações amorosas constrangedoras que eu genuinamente não consigo achar minimamente realistas. Questões familiares da Kitty foram abordadas, sim, mas perderam o foco em meio a tantas tramas misturadas.
A segunda temporada, mesmo sendo mais curta, tentou consertar alguns pontos, inserindo mais elementos familiares, mais cultura coreana (ainda que estereotipada), e mais momentos de interação entre os personagens. Infelizmente, nem tudo foi perfeito: ainda tivemos situações estranhas, muitas referências desnecessárias à trilogia original, e personagens novos sendo introduzidos um atrás do outro e sem desenvolvimento.
E a terceira temporada, que lançou em Abril deste ano, eu nem vou assistir, embora tenha pego alguns spoilers por curiosidade. Vamos deixar para o final.
Personagens
Eu ia tentar começar diferente, mas é meio difícil falar de uma história sem mencionar primeiro quem a vive como protagonista. Katherine Song-Covey, mais chamada de Kitty, é… uma adolescente sem muitos hobbies, pra ser honesta. Se no filme protagonizado pela irmã, suas poucas características funcionavam, isso não a sustenta em Com Carinho, Kitty.
Até a própria série faz piadas sobre ela ficar fixa em alguns assuntos: sua vida amorosa, a vida amorosa de seus colegas, o drama familiar alheio, e, com alguma sorte, um pouco sobre sua mãe. Isso sem contar sua tendência a estragar tudo, às vezes até de formas estúpidas e exageradas, que só é reconhecida na segunda temporada.
Temos um arco mega confuso sobre sua sexualidade, mas não temos um arco sobre sua hiperfixação em romance, nem sobre sua incapacidade de respeitar outras pessoas. Alguns personagens criticam seu jeito “acelerado” e intrometido, mas nenhuma grande reflexão é feita, porque ou alguém a acolhe sem deixá-la crescer, ou ela estava certa desde o início.
E com isso vamos para Dae, que é altamente injustiçado. Ele tem uma situação financeira delicada, que é levemente explorada, mas, fora disso, ele é apenas o cara que gosta da Kitty, e, ocasionalmente, amigo do Min Ho e do Q. Em um episódio, até gostei da dinâmica dele com a família e com a Yuri, mas esse lado não volta com frequência.
Já que falamos na Yuri, vamos falar de mais potencial desperdiçado. A Coreia ainda trata pessoas LGBTQ+ muito mal, e isso é ainda pior para quem é considerado importante, como ela, que seria herdeira de uma rede de hotéis (e filha da diretora da escola!).
Mas, além de vítima, Yuri é também uma grandiosíssima canalha, coagindo Dae, prejudicando Kitty, e complicando a vida alheia por puro prazer e objetivos próprios, o que faz com que a redenção ainda na primeira temporada seja muito corrida. Na segunda temporada, porém, acho que seu papel foi reduzido ainda mais a interesse amoroso e isso foi bem chato de acompanhar.
Antes de passar para o melhor, vou apresentar Quincy, ou Q, o amigo gay de suporte da Kitty e terapeuta de todos, bem à moda 2010. Eu gostei dele, porque ele é feito para ser legal e quem resolve os problemas, mas é só isso. A única parte genuinamente explorada dele é, realmente, o romance, e as tendências em se envolver com gente problemática.
Agora sim, vamos falar do único personagem que eu gostei de verdade: Min Ho. Na minha opinião, ele sempre foi o cara certo desde o teaser. Ele tem estilo e visuais mais marcantes, uma personalidade um pouco mais definida, e é alguém que não lambe as botas da Kitty sem ser vilão. É incrível? Não. Mas as expectativas estão um pouco baixas.
Vamos deixar algo claro: assim como todos os outros, seu arco de desenvolvimento tem a ver com romance, mas, aqui, eu acho isso aceitável. Ele é o clichê do playboy, que não quer se apegar, e personagens assim ou são os que ensinam a protagonista a não cair na lábia do primeiro que aparece, ou os que vão entender que esse tipo de vida não se sustenta por muito tempo.
Diferente de Kitty, porém, ele reage às coisas: se chateia com Dae, defende Q, tem opiniões, o enredo anda com ele e por causa dele. E isso é uma fraqueza de muitos romances: fazer os interesses amorosos masculinos mais interessantes que as protagonistas. Esse desequilíbrio é um pouco corrigido na segunda temporada, mas a primeira é bem sofrível nesse ponto.
Com isso, sobram os personagens do corpo docente e outros que vão aparecendo ao longo da trama, e desaparecendo, também. Não quero falar sobre eles para evitar alongar ainda mais o texto.
Até que ponto podemos ignorar os defeitos por ser “série adolescente”?
Talvez alguns pensem que eu tô indo longe demais. É literalmente uma série adolescente e, eu, com 23 anos na cara, não sou mais o público alvo. Não é tão profundo… ou é?
Não gosto muito desse papo de “é só para adolescente” para justificar algo ser ruim. Existe uma linha muito tênue entre ser leve e ser idiota, e eu vou usar como exemplo nada mais, nada menos que… Amor Doce, mais especificamente, o High School Life.
Embora não seja brilhante, essa temporada de Amor Doce é divertida e, até uns 30 capítulos, não se leva a sério. A trama é meio besta, mas esse é exatamente o charme! Com Carinho, Kitty, por outro lado, quer ser tudo ao mesmo tempo: engraçada, clichê, inovadora, e isso não funciona tão bem assim.
Além disso, temas sérios foram tocados muito superficialmente e depois descartados. Quando uma situação de gravações não autorizadas de uma personagem dormindo é trazida à tona… ela é jogada de escanteio. Literalmente um crime cometido contra uma adolescente, e, em vez de pelo menos refletirem sobre o tema, simplesmente o usaram de recurso para conectar Kitty e os garotos com mais intensidade.
Eu já tive 13 anos, obviamente, e eu já amei ler clichês escolares super irreais no Wattpad, Nyah!Fanfiction e Social Spirit. O problema não é ser clichê ou bobinho, é tentar usar todos os possíveis cenários em uma única trama.
O problema do desenvolvimento do romance
Opinião impopular: acho super problemática a confusão entre atração física e amor, e do contato físico como demonstração máxima dele. Gente que nem se fala direito, que nem se conhece bem, supostamente apaixonadas por causa de uma ou duas interações?
A série é de romance, então, obviamente, Kitty e seu par precisam disso, mas me incomoda o quanto exatamente todos precisam ter algo grande, ou até escandaloso, acontecendo em suas vidas amorosas. E como quase todo personagem introduzido precisa ter alguma relação ou agenda oculta com alguém do grupo principal. Gente, eles têm 16 anos, vamos mais devagar?
Será que alguém do grupo principal pode simplesmente existir, estudar, viver normalmente? Mesmo sendo uma série de romance, isso me incomoda muito, pois existe muito mais nesse período de adolescência, como a pressão para escolher uma faculdade, identidade, as relações familiares… tudo fica em segundo plano em prol de umas cenas aleatórias e constrangedoras.
Tem gente de várias idades no Reddit fazendo análises dos personagens com muito mais detalhes que a série, reescritas no Ao3 mais criativas e interessantes… penso que subestimar o fandom ao entregar o básico mal feito é besteira.
A Coreia mais estadunidense que existe
A série é construída em cima de coincidências muito grandes, mal entendidos esquisitos, e, mais que tudo, numa versão americanizada da Coreia do Sul. Festas grandes bancadas por um aluno rico? Gente se beijando a cada metro quadrado ao ponto em que assistir é constrangedor?
Isso, em ficção de outros países, seria normal. Só de cabeça, consigo lembrar dos primeiros capítulos do livro D.U.F.F., e sei que tem várias outras mídias com estadunidenses fazendo a mesma coisa. Foi só na segunda temporada, junto de roteiristas de origem asiática, que alguns clichês escolares coreanos ruins começaram a entrar na série.
Sempre tenho para mim que é difícil falar de outras realidades sem ou vivê-las, ou falar com alguém que a vive. Se eu, fluminense, não consigo falar com certeza sobre a vida no interior do Rio Grande do Norte só porque moro no Brasil, imagina a de outro país!
Para saber se era apenas uma coisa minha ou não, fui atrás de comentários de pessoas coreanas. Muitos falam do quanto as coisas não encaixam, e do quanto apenas as coisas boas do país foram realçadas enquanto boa parte do resto foi americanizado ou ignorado.
Para além do comportamento dos personagens, percebi também que a série se passa quase que inteiramente dentro do colégio. Kitty não se esforça muito para explorar o país ou aprender o idioma, o que é um pouco estranho para alguém que queria se conectar com a mãe e sua cultura. Mas, dada a qualidade da narrativa, acho que pode ser melhor assim.
O sonho dourado de uma koreaboo
Para além de ser problemático para adolescentes, essa série acaba sendo feita exatamente para o público que ela finge querer fazer algumas piadinhas através da personagem Madison, uma moça de fora da Coreia escrita unicamente para ser alívio cômico e o estereótipo da koreaboo.
Madison é, basicamente, a menina fascinada pela Coreia ao ponto de tentar sair com um coreano por diversão, falar palavras aleatórias no idioma e ser fascinada pelo lugar de forma obsessiva. O problema é que a série se sustenta nessa mesma fantasia! Como fazer piada da mesma coisa que você faz parte?
Essa percepção aumentou quando vi pessoas coreanas ou que estiveram na Coreia por algum tempo comentando sobre a série. Como não faço parte desse grupo, eu prefiro apenas deixar essas análises aqui para que possam ter outro ponto de vista:
- Korean Netizens React To “Unrealistic” Portrayals Of Korea In Netflix’s “XO, Kitty”, do site Koreaboo (em inglês);
- XO, Kitty S2: The Koreaboo Mess, do canal Croffle (em inglês);
- Even For A Hallyu Stan Like Me, XO Kitty Is Irksome, por Sahil Pradhan (em inglês);
- How Accurate Was “XO, Kitty”?, por YJ Jun (em inglês).
Kitty vs. Yuri ou Kitty x Yuri?
Ou simplesmente: inimigas, amigas, ou namoradas?
Duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo:
- Se Kitty e Yuri fossem um casal hétero, certamente mais gente apoiaria, pois Enemies to Lovers é muito popular;
- Casal hétero ou não, seria corrido e sem explicações lógicas do mesmo jeito, e com energia de “Second (male) lead”.
Acima de qualquer ideia de casal, eu acho que Kitty precisa de uma amiga. Ela só anda com garotos, a vida dela gira em torno de garotos, e, ao menos até o fim da segunda temporada, as meninas de maior destaque são ou vilãs, ou nada memoráveis. A única que fica é Yuri, e ela só permaneceu porque… virou interesse amoroso.
Como em todo fandom de história de romance, nunca existe um consenso de quem deveria ser o casal endgame, mas Com Carinho, Kitty, ao introduzir um possível casal sáfico sem muito desenvolvimento, criou um ambiente onde muitos se sentiram confortáveis em espalhar homofobia sob o pretexto de criticar a série. Realmente acredito que é interessante deixar Kitty se questionar, mas, para mim, não foi executado como poderia ter sido.
Essa pesquisa sobre as reações e opiniões me trouxe a outro ponto sobre a escrita de Jenny Han: tanto em Com Carinho, Kitty, como em outra obra da autora, temos personagens negros colocados como “a segunda opção” ou até mesmo vilões, como o que acontece com Julianna e outro personagem na terceira temporada.
Uma publicação no Reddit sobre uma possível tendência da autora em não fazer justiça aos personagens negros em outra obra me fez refletir bastante sobre o tema, e esse comentário me parece bem válido para o que acontece com a série:
[…] ela testa essas teorias e nunca dá profundidade para elas: LGBTQIA, ansiedade, pessoas não brancas, mas nunca existe discussões significativas sobre elas.
Temos Julianna, que é, na segunda temporada, vilanizada sem motivo; temos Praveena, uma garota cujas maiores ações na trama são como tapa buraco emocional; o próprio Q, que, como falei antes, tem esse quê estereotipado. Independente da intenção, a representatividade existe em papéis controversos, e isso traz mais desconforto que homenagem.
Terceira temporada
Bom, como eu já disse, eu não assisti, apenas acompanhei resumos e spoilers, e eu gostaria de elaborar o motivo. “Nossa, mais? Mais de duas mil palavras e você ainda tem o que falar???” Tenho! Eu gosto de falar.
O principal que me fez desistir foi a qualidade das atuações nas temporadas anteriores. Precisamos de duas temporadas para Sang Heon Lee, que interpreta Min Ho, começar a acertar o tom, mas Gia Kim continuou fazendo a Yuri meio distante do que está acontecendo. Acho que ela poderia estar assistindo um crime desenrolando em sua frente, mas não reagiria tanto. Se é escolha da direção, eu não sei.
Eu assisti legendado, e o diálogo original não é bom, então não é culpa da nossa dublagem. Entendo que são adolescentes, mas me pareceu tão esquisito, com gírias que vão ficar bem datadas em breve.
Outra coisa que me deixou meio desnorteada é que, a cada capítulo, tínhamos um motivo diferente para a viagem de Kitty para a Coreia, com alguns personagens dizendo que foi pelo Dae, outros, pela falecida mãe, e isso me deixou confusa também. É como se a série não soubesse o que quer fazer com a própria protagonista.
Mesmo com tantas coisas ruins, vou ter que passar um pano e dizer que talvez funcionaria se fosse um livro escrito por uma pessoa só. A necessidade de criar momentos para colocar um K-pop famosinho, enfiar a câmera na cara dos atores para cenas estranhas, e, claro, implorar pelo foco de quem assiste, acabou estragando a série.
E, alerta de spoiler máximo, me faz rir um pouco que o personagem que Kitty teve mais química seja, justamente, o que ela menos teve afeto físico: Min Ho. Mas, com a temporada nova onde eles finalmente viraram um casal, sinceramente perdi o interesse. Pelo que li do enredo, continuaram nessa pegada bem fantasiosa, então decidi que ia usar meu tempo de forma mais eficiente: escrevendo esse desabafo, talvez?
Conclusão
Como qualquer pessoa que passou pelos 18 anos, eu já fui adolescente, e já adorei consumir esse tipo de conteúdo bobo na fase onde eu e os personagens tínhamos similaridades, estávamos na escola, tínhamos rixas com outros alunos…
… mas nada disso é próximo da realidade. É um escapismo, claro, e, até hoje, eu consumo esse tipo de mídia para me colocar nessa bolha confortável. O que me entristece, de verdade, é o quanto esse tipo de conteúdo, que antes trazia conforto, hoje é muito mais comercial e diria até despreocupado com o impacto que possui.
É verdade que a série te deixa na curiosidade do que vai acontecer, mas usa de todo artifício para isso. Bom, todos, menos fazer personagens cativantes de verdade e com profundidade. Sinto que a série seria bem melhor se pudesse focar em menos coisa e tentar menos coisas.
Acompanhar a série é como assistir um TikTok de uma pessoa falando com uma música de fundo alta e um vídeo de Subway Surfers do lado: muito estímulo, muita coisa acontecendo, e nada parece concluir no final pois é rápido demais, raso demais, e implorando uma parte 2. E isso se estende para fora de Com Carinho, Kitty, em vários tipos de mídia.
A diferença que, pra mim, torna essa série mais “condenável” é o orçamento monstro que eles certamente tiveram para tal. Não é uma websérie independente. Não é uma fanfic. É uma série escrita por uma autora popular do gênero, com investimentos altos, exibida em um dos maiores streamings do mundo… por que o resultado não é melhor, se sabemos que poderia ser?
Eu sigo na procura por séries e histórias para me dar conforto e risadinhas bestas em momentos difíceis, e é uma pena que Com Carinho, Kitty não tenha sido a melhor para tal. Obrigada por lerem meu textão, e espero que tenham curtido a análise!

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