O que será do blog daqui pra frente?

29/08/2026

Uau, tem literalmente meses que não posto. A vida tem estado uma loucura, e eu não ia ficar me forçando a escrever, até mesmo porque, se eu postasse metade do que cheguei a rascunhar, seriam quase todas reclamações de alguma coisa. Eu me tornei quem mais temia: a pessoa que critica quase tudo.

Se você escreve aqui no Blogger, deve ter percebido que não temos mais grandes atualizações desde, no mínimo, uns 8 anos, que foi quando eu criei o Just Daydreamin’. De cara, isso não é ruim: como alguém que trabalha com desenvolvimento, sei que falta de recursos novos não quer dizer falta de manutenção, e convenhamos que não tem muito o que ser adicionado numa plataforma de escrever e postar textos.

No começo, estava em paz com isso. Eu não queria largar a plataforma, pois tenho mais de uma década por aqui. Literalmente vivi o finalzinho da época onde todo mundo queria ter seu cantinho online e vi o início e consolidação do império das redes sociais (eca), então entendam, sou quase uma não tão sábia anciã virtual. Além disso, se me interessei por programação, foi graças ao Blogger. Mas carinho e nostalgia não levam as coisas para a frente. E eu queria fazer esse desabafo público sobre o que o Blogger virou para mim.

Estão de olho em nós, meros “da Silva”

Ter ficado esse tempo meio reclusa depois de tanta coisa que aconteceu me deixou mais mente aberta, e mais atenciosa aos detalhes e às notícias. Se você for da comunidade mais criativa, deve ter visto a quantidade de censura que está acontecendo em praticamente todas as plataformas, e algumas fazem sentido: certos conteúdos mais explicitos precisam de um aviso ou um borrão antes do usuário clicar. Mas, agora, as coisas estão indo além.

Um dos exemplos que mais me chocou foi a pressão financeira pela remoção de alguns títulos da Steam e Itch.io, plataformas gigantes de jogos. Para se adequarem às regras da Visa, Stripe e MasterCard, e combaterem conteúdos degradantes, as plataformas deveriam remover do catálogo jogos com… cenas sexuais.

Li vários artigos e posicionamentos sobre o assunto, e a esmagadora maioria dizia a mesma coisa: injusto, pois cenas consensuais e românticas receberam a mesma punição que conteúdos brutais, e até pessoas que sequer tinham conteúdos explícitos foram atingidas. Mesmo que quase todos os afetados tenham tido suas contas normalizadas, isso despertou um medo em muita gente, e é difícil reclamar disso sem ser tachada de coisas ruins, afinal, pense nas crianças, né? Como se todo esse movimento fosse só sobre elas, e não sobre dinheiro.

E isso não é um problema só do mundo gamer ou dessas plataformas. Mais uma vez, uma das coisas que o corporativismo me mostrou é que muitas empresas não vão se associar com conteúdo adulto ou controverso, e digo isso porque já vetei vários sites “suspeitos” da lista de domínios para exibir anúncios de onde eu trabalhava. Logo, pra um site ter lucros garantidos, precisa ser apropriado para toda a família. A questão é que essa moderação está sendo feita em massa por Inteligências Artificiais, que, obviamente, não pensam e não entendem nuances muito bem.

Estive, nos últimos meses, sofrendo muito com robôs visitando meu blog, mas, em Agosto, as coisas aumentaram. Cheguei a passar de mil visitas, todas de países bastante inusitados pro meu público: Vietnã, Paquistão, Afeganistão, Singapura… claro que existem pessoas nesses países, mas, certamente, não tenho 60 e poucas no mínimo de alguns deles me visitando num dia só.

Gráfico de visitas diárias no meu blog, referentes ao mês de Agosto de 2026. Nele, é possível ver picos de visitas, com destaque ao dia 11 de Agosto, que atingiu a marca de 401 visitas diárias, o que não acontece em outros dias.

Gráfico referente ao mês de Agosto de 2026. O pico no dia 11 atingiu 401 visitas, o que foi bem estranho de ver acontecendo.

Gráfico de rosquinha exibindo informações de visitas por país, referentes ao mês de Agosto de 2026. Nele, é possível ver que 285 visitas foram do Vietnã; 207, do Brasil; 173, dos Estados Unidos; 65, de Hong Kong; 61, de Singapura; 52, da França; 50, de Bangladesh, 45, da Argentina; 42, do Paquistão; e 672 estão agrupadas em "Outro", sem informação dos nomes individuais dos países.

Gráfico também referente ao mês de Agosto de 2026. Como ainda tem mais países nessa lista?!

Comecei a procurar algum padrão, mas nada: eles iam de textos do começo do blog até os mais recentes. Até textos bobos de quando estava no Ensino Médio receberam visitas! Simplesmente surreal. Eu suspeitava que se tratava de Inteligência Artificial “aprendendo” com meus textos, o que eu sequer consenti! Decidi pesquisar no fórum do Blogger para saber se tinha alguém falando disso, e, preparem-se, porque a fofoca é boa.

Acreditam que tivemos um mini surto de blogs sendo banidos injustamente? A acusação foi conteúdo malicioso, mas me acendeu um alerta enorme: estão de olho em nós, meros “da Silva”, e não sei o motivo. Foram, no mínimo, 20 blogs em um só dia, e estou falando só de quem se manifestou publicamente sobre isso. Alguns casos:

Por mais que alguns deles tenham voltado ao ar, continuei meio preocupada. O posicionamento em espanhol diz que o “filtro anti-spam” deles foi ajustado e que não deve mais acontecer, mas… isso não acontece do nada. Quais alterações colocaram nesse filtro para que tantos blogs fossem afetados? O que está por vir? Será que parte daqueles tantos robôs visitando meu blog estavam, na verdade, moderando meu conteúdo, em busca de algo “errado” para me banir?

O que escrevo, em teoria, não viola os termos do Blogger, mas tenho medo de cair na malha fina de conteúdo adulto por escrever de romances que, às vezes, têm alguma cena implícita mais “inapropriada”. É surreal falar de relações fofas, consensuais e fictícias com essa palavra, mas é o que temos pra hoje.

Já deixei de escrever sobre várias coisas por medo de ser mal interpretada, e vou assumir: isso não ajudou em nada, porque, agora, tem robôs me vigiando, possivelmente roubando meu conteúdo e com poder de jogar fora oito anos de esforço, memórias e textos por besteira.

As coisas como eram antigamente

Como falei, eu vi a queda dos blogs pessoais, ou, ao menos, a queda deles como o hobby principal de garotas de 10 a 16 anos. O pessoal era meio maníaco com “te sigo, segue de volta?” e comportamentos meio chatos, mas certamente não é um décimo do problema de hoje em dia.

Pra alguém te plagiar, tinha que entrar no seu blog, conhecer seu trabalho de alguma forma, e ser babaca o suficiente pra roubar seu texto na íntegra. Agora tem um monte de ricos (olá, Sam Altman!) ganhando dinheiro com seus datacenters gigantescos para fazer a mesma coisa que aquela pessoa doida que todo mundo odiava fazia antes.

Fico nostálgica dessa época, com todos os seus problemas, blogs parceiros, amizades, blogagens coletivas, comunidades, panelinhas… e não sou só eu sentindo isso! Percebi um movimento bem grande para a indie web, para como as coisas eram antes: sites pessoais feitos com as próprias mãos, pouca ou nenhuma preocupação com relevância, textos sobre coisas bobas, como personagens que gostam, comidas favoritas e tudo mais. Algo mais orgânico.

Parte desse movimento está aqui, e, hoje, sigo vários blogs que encontrei pelo projeto Entreblogs e o Blogueiros Raiz. Mas a maior porcentagem dele está distribuída em outras plataformas, como Bear Blog, Neocities, Nekoweb e DreamWidth.

É engraçado que o Blogger, nascido em 1999, não esteja no centro disso tudo, mas é compreensível: desde 2003, a plataforma pertence ao Google, e, de uns tempos para cá, a empresa se mostrou cada dia pior em coleta de dados, invasão de privacidade, e uma tentativa de monopolizar a internet. Nem todo mundo quer se associar a isso. E, quer saber? Estão mais que certos.

Mas será que vale a pena mudar?

Não se ensina truque novo para cachorro velho, é o que dizem. Não sou velha, mas, como disse, aqui eu sou uma anciã, e chega num ponto que o conforto, a preguiça e a comodidade vencem qualquer coisa. Mesmo assim, comecei a pensar na possibilidade de colocar meus setenta textos numa trouxinha e ir de mudança para outro lugar, e não é um pensamento bobo, sem planejamentos, já estou experimentando opções. O blog é parte da minha história, e eu não quero perdê-lo.

Eu quero fazer as coisas que eu quero fazer. Quero falar dos meus romances fofos e brincar que o protagonista é um gostoso, sem medo de julgamento, tanto humano, quanto de máquinas, embora eu não queira humanizar robôs e dizer que eles pensam. Quero poder falar de coisas sem medo de ter meu blog com restrição de idade, fazendo com que as pessoas precisem verificar sua identidade para entrar (e, eu, para escrever.) Eu quero voltar a não pensar tanto na consequência de atos que eu sequer estou cometendo.

Eu não quero que esse texto “envelheça mal”: se eu migrar, ótimo; se eu demorar pra fazer, tudo bem; se eu não fizer, beleza, também, certeza que tive meus motivos. Não quero que isso me assombre daqui a uns meses ou anos, e, de verdade, quero mesmo que eu esteja exagerando, que essa onda de banimentos tenha passado, que esse tanto de robôs vindo aqui me roubar simplesmente me esqueça e que a bolha da IA estoure logo.

Enquanto não me decido, ainda pretendo postar coisinhas bobas por aqui, mas sempre pensando em planos B e C se necessários e com uma cópia de todos os textos no computador. Andei meio borocoxô ultimamente por motivos de muita coisa acontecendo somada à ansiedade climática, mas quero tentar fazer coisas interessantes e compartilhar sobre elas, quem sabe. Talvez nada aconteça e o Just Daydreamin’ siga de pé. Talvez, assim que eu clicar em “Publicar”, o blog inteiro caia. Talvez demore uns meses até o algoritmo deles endoidar e decidir que eu estou fazendo algo muito odioso.

Nesse mundo de moderação, ninguém sabe o dia de amanhã, só sei que agora tenho um backup de todos os meus textos, e que eu recomendo todo mundo que escreve aqui a fazer o mesmo. Mantenham seus espaços e memórias sempre seguros, procurem alternativas mais tolerantes se possível e sejam, de alguma forma, resistência a essa loucura que estamos vivendo.

2 comentários:

  1. Gostei muito do seu texto e me preocupa muitas coisas parecidas com o que você falou! Sabe que eu fiquei com um medo bem parecido, de perder postagens muito antigas, ou alguma coisa assim.
    Não sei também se vale a pena mudar de endereço pelo mesmo motivo que o seu: aprendi há muitos anos como usar o blogger, alterar layout e etc, e agora não sei se quero ir para outro lugar.
    E eu tenho uma outra questão também que é a nostalgia: algo em mim fica feliz todas as vezes que eu consigo usar a internet e ela estar exatamente igual há 15 anos atrás (o blogger não mudou em nada que eu me lembre). Enfim. Muitas questões. Abraço!

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  2. Gostei do seu texto e de saber que você é precavida o suficiente pra guardar backup.

    Te encorajo a mudar de endereço ou ter um espelho do blog noutro lugar. Mas quando fizer, não deixe de avisar a gente.

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